Voltar ao blog

Como Licitar um Sistema de Gestão Escolar pela Lei 14.133

Modalidade, estudo técnico preliminar, termo de referência, pesquisa de preços, prova de conceito e fiscalização do contrato: o caminho para contratar software de gestão escolar sem direcionar a licitação.

Como Licitar um Sistema de Gestão Escolar pela Lei 14.133
Autor: Toth
Publicado em:
8 visualizações

Contratar um sistema de gestão escolar em um município não é escolher o melhor software: é escrever um documento que permita ao melhor software ganhar. A Lei 14.133/2021 mudou o eixo da contratação pública para o planejamento prévio, e é no planejamento que a maioria das licitações de software educacional se perde.

Este guia trata do caminho: qual modalidade usar, o que precisa constar no termo de referência, quais exigências direcionam indevidamente a disputa e como avaliar propostas sem levar gato por lebre.

Qual modalidade usar?

Para bens e serviços comuns, o pregão, preferencialmente na forma eletrônica, é a regra. Software de gestão escolar padrão de mercado, contratado como licença de uso mais serviços de implantação e suporte, se enquadra nessa categoria na maior parte dos casos.

A exceção aparece quando o objeto exige desenvolvimento sob medida ou solução com característica não comum, o que empurra para outras modalidades. É um enquadramento que precisa ser justificado tecnicamente, e não pela conveniência de evitar disputa: tribunais já apontaram falhas exatamente nesse ponto em contratações de sistemas de gestão pública.

Na prática, se o município quer o que o mercado já vende, o caminho é pregão eletrônico.

O que a Lei 14.133 exige antes de licitar?

A nova lei colocou o planejamento no centro. Três peças precedem o edital:

  • Documento de formalização da demanda. Por que a secretaria precisa disso, qual problema resolve e o que acontece se nada for feito.
  • Estudo técnico preliminar. As alternativas consideradas, incluindo software livre e a manutenção da situação atual, com a justificativa da escolha.
  • Termo de referência. O que exatamente será contratado, com requisitos objetivos e mensuráveis.

Pular o estudo técnico preliminar é o erro mais caro, porque é ele que sustenta a decisão diante do controle. Uma rede que não avaliou a alternativa gratuita terá dificuldade de explicar a contratação paga.

O que precisa constar no termo de referência?

Dimensionamento real

Número de escolas, matrículas ativas por etapa, quantidade de servidores e usuários simultâneos previstos. Sem isso, as propostas não são comparáveis, porque cada fornecedor imagina uma rede diferente.

Módulos exigidos, com função descrita

Não basta listar "módulo pedagógico". Descreva a função: lançamento de frequência por aula, cálculo automático de percentual, fechamento de período conforme a regra de avaliação da rede. Requisito descrito por função permite qualquer fornecedor competente atender; requisito descrito por nome de tela costuma copiar o folder de um deles.

Integrações obrigatórias, nominalmente

Educacenso, MEC Gestão Presente e o sistema de prestação de contas do tribunal do seu estado. Esta é a exigência que mais separa fornecedor preparado de fornecedor genérico, e é legítima porque decorre de obrigação legal do município.

Migração dos dados existentes

Diga o que existe hoje, em que formato, e exija a migração como parte do objeto, com prazo. Migração fora do contrato vira trabalho não pago que recai sobre a equipe da secretaria.

Propriedade e devolução dos dados

Cláusula expressa: os dados são do município, e ao fim do contrato serão devolvidos em formato aberto e legível, em prazo definido, sem custo. É a proteção mais barata e a mais esquecida.

Níveis de serviço

Disponibilidade mensal, prazo de atendimento por criticidade e penalidade pelo descumprimento. Sem SLA com consequência, o suporte é o que o fornecedor decidir que é.

Capacitação

Carga horária, público, formato e recorrência. Rede pública tem rotatividade: prever apenas o treinamento inicial garante que em dois anos ninguém saberá usar o sistema.

LGPD

Papéis de controlador e operador, medidas de segurança, comunicação de incidente e destino dos dados ao fim do contrato. A rede trata dados de crianças, o que eleva o dever de cuidado.

Quais exigências direcionam a licitação?

Direcionamento derruba o processo, e às vezes responsabiliza quem assinou. Sinais de alerta:

  • Nome de produto ou de tela no lugar da função.
  • Tecnologia específica sem justificativa técnica, como exigir determinada linguagem ou banco de dados.
  • Atestado desproporcional, do tipo experiência em rede de porte muito superior ao do município.
  • Conjunto de requisitos que só um fornecedor reúne, ainda que cada um pareça razoável isolado.
  • Prazo de implantação impossível, que na prática só é cumprido por quem já está lá.

O teste simples: cada exigência precisa ser justificável por uma necessidade da rede, escrita em algum lugar. Se a justificativa for "o sistema que vimos tem isso", ela não sustenta.

Como fazer a pesquisa de preços

A estimativa de valor é uma das partes mais questionadas pelo controle, e uma das mais mal feitas em contratação de software. Três fontes sustentam:

  • Contratações similares de outros entes. Municípios de porte parecido, com número de matrículas próximo, e não apenas população semelhante.
  • Painéis públicos de preços. Consultados por objeto e registrados no processo, com data.
  • Cotações formais de fornecedores. No mínimo três, com o mesmo dimensionamento informado a todos, para que sejam comparáveis.

Um cuidado específico do setor: compare por matrícula, não por contrato. Um contrato de R$ 200 mil pode ser caro ou barato dependendo de a rede ter 3 mil ou 30 mil alunos. Registre a metodologia por escrito no processo.

Como estruturar o objeto

Software de gestão escolar raramente é uma compra só. O objeto costuma reunir quatro itens que precisam aparecer separados na planilha:

  • Licença de uso ou assinatura, com a métrica definida: por matrícula ativa, por escola ou valor fixo.
  • Implantação, incluindo configuração, parametrização e migração, com pagamento vinculado a entrega verificável.
  • Capacitação, com carga horária e público definidos.
  • Suporte e manutenção, mensal, com níveis de serviço.

Separar os itens permite medir a execução e reter pagamento do que não foi entregue. Objeto único e indivisível dificulta a fiscalização e costuma favorecer quem entrega menos.

Como avaliar as propostas?

No pregão, o julgamento é por preço, o que torna a habilitação técnica e a prova de conceito ainda mais importantes.

Prova de conceito. Previamente descrita no edital, com roteiro objetivo e critérios de aprovação. Peça o caminho completo de um caso real: matricular um aluno, enturmar, lançar frequência e nota, fechar o período e gerar o boletim, além de exportar o arquivo do Censo. Sem roteiro escrito, a demonstração vira apresentação comercial.

Atestados verificáveis. Exija o contato do órgão que emitiu e ligue. Perguntas úteis: o prazo foi cumprido, como foi o suporte no primeiro Censo, e o que deu errado.

Equipe. Quem implanta e quem atende, com qualificação mínima definida.

Erros que se repetem nas contratações municipais

Copiar edital de outro município sem ajustar. O termo de referência traz o dimensionamento e as obrigações de outra rede, e ninguém percebe até a execução.

Licitar em setembro. A implantação precisa da virada do ano letivo. Contratação assinada em outubro produz implantação apressada ou sistema parado por meses.

Contratar só a licença. Sem migração, formação e suporte no objeto, a rede compra um software que não entra em uso.

Não prever crescimento. O contrato precisa dizer o que acontece se a rede abrir uma escola ou crescer 15% de matrícula.

Esquecer as conveniadas. Creches conveniadas e filantrópicas que entram no Censo do município precisam estar previstas no dimensionamento.

Como fiscalizar o contrato depois de assinado

A Lei 14.133 reforçou a figura do fiscal e da gestão contratual. Em software, fiscalizar bem exige critérios objetivos, definidos antes:

  • Marcos de implantação verificáveis. "Cadastros migrados e validados pela secretaria" é verificável; "sistema implantado" não é.
  • Relatório mensal de disponibilidade, com registro das indisponibilidades e do tempo de resposta aos chamados.
  • Registro dos chamados em ferramenta acessível ao município, não apenas ao fornecedor.
  • Comprovação das capacitações, com lista de presença e conteúdo.
  • Teste anual de exportação dos dados. A cláusula de devolução só vale se alguém já tiver testado que funciona.

Nomeie o fiscal entre quem usa o sistema, tipicamente alguém da secretaria de educação, e não apenas do setor de contratos. Quem não opera não percebe descumprimento.

Um roteiro de 90 dias até o edital

  • Dias 1 a 20. Levantamento da situação atual: o que a rede usa hoje, quantas escolas, matrículas por etapa, quais obrigações estão atrasadas.
  • Dias 20 a 40. Estudo técnico preliminar, com as alternativas avaliadas, incluindo software livre e a manutenção do cenário atual.
  • Dias 40 a 60. Redação do termo de referência, com requisitos por função e integrações nominadas.
  • Dias 60 a 75. Pesquisa de preços, com no mínimo três cotações sobre o mesmo dimensionamento.
  • Dias 75 a 90. Revisão jurídica, definição do roteiro da prova de conceito e publicação.

Contar de trás para frente a partir da virada do ano letivo evita o erro mais caro do setor: contratar em outubro e implantar às pressas.

Perguntas frequentes

Podemos exigir integração com o MEC Gestão Presente?

Sim, porque decorre de obrigação do município. O cuidado é descrever a integração pela função e pelo resultado esperado, não pelo nome comercial da solução de um fornecedor.

Software livre dispensa licitação?

A licença é gratuita, mas hospedagem, implantação, customização e suporte são serviços e precisam ser contratados na forma da lei. Na prática, licita-se o serviço, não a licença.

Qual prazo de contrato faz sentido?

Sistemas de gestão são serviços contínuos, o que permite contratos plurianuais dentro dos limites legais. Prazo curto demais penaliza a rede, porque a implantação é o investimento maior e ela se paga ao longo do uso.

Como precificar antes do edital?

Pesquisa de preços com fontes admitidas: contratações similares de outros municípios de porte parecido, painéis de preços públicos e cotações formais. Registre a metodologia, porque ela será verificada.

E se só aparecer um licitante?

Não invalida por si só, mas é sinal de que o termo de referência pode estar restritivo. Vale revisar as exigências antes de repetir o certame.

Conclusão

A qualidade do sistema que uma rede municipal vai usar nos próximos anos é decidida no termo de referência, não na proposta vencedora. Exigência descrita por função, integrações obrigatórias nominadas, migração dentro do objeto, dados devolvíveis e prova de conceito com roteiro escrito: cinco itens que separam uma contratação que funciona de um contrato que a secretaria vai administrar sofrendo.

Se a sua secretaria está montando esse processo, veja o que consideramos essencial na gestão para rede pública e o panorama completo em sistema de gestão escolar para rede municipal de ensino. Para conversar sobre o caso da sua rede, agende uma demonstração.